Ainda não viramos totalmente,
Dezembro 5, 2008 · http://www.outroladodanoticia.com.br/
Por Nuno Garoupa, no Jornal de Negócios.
Pouco a pouco vamos conhecendo a nova administração norte-americana. E pouco a pouco começam a surgir as críticas e os comentários de decepção na esquerda norte-americana, naqueles que foram a base inicial de apoiantes e animadores de Obama. Como dizia o El País no passado domingo, o governo de Obama só pode ser visto como de centro-direita numa perspectiva europeia.
Mas as escolhas moderadas e centristas de Obama, mesmo a possível inclusão de alguns republicanos moderados, obedecem aos resultados eleitorais e à geografia do poder político norte-americano. Ao contrário do que muita gente escreveu na imprensa europeia (e na portuguesa naturalmente), a América não virou à esquerda, mas antes consolidou-se à direita. O centro geométrico da política norte-americana está hoje muito mais à direita do que nos anos 70. As transformações ideológicas dos anos 80 e 90 nos dois partidos consolidaram-se nestas eleições, com ambos os partidos ancorados à direita e menos identificados à esquerda.
O Partido Republicano foi palco durante quase 30 anos do conflito entre a direita religiosa e a direita moderada e neoliberal. Esta tradicionalmente dominava o Partido Republicano nas costas Leste e Oeste, e foi a grande preconizadora do Reaganismo. A direita religiosa começou por controlar o Partido Republicano no Sul e no Midwest, conseguiu chegar à Casa Branca com Bush e é hoje quem realmente comanda o Partido Republicano. A escolha de Sarah Palin por McCain para vice-presidente foi um sinal evidente de força por parte da direita religiosa e de grande fraqueza do candidato. O desaparecimento do Partido Republicano na Nova Inglaterra (sem um único senador na região), o seu berço de nascença depois da guerra civil, confirma o declínio acelerado da direita moderada, e o forte predomínio da direita religiosa no grupo republicano do Senado e da Câmara dos Representantes.
Por outro lado, o Partido Democrata ganhou à direita. Quase todos os novos senadores e congressistas eleitos em Novembro são da ala moderada, confundem-se com muitos republicanos em temas económicos e sociais (aborto, matrimónio homossexual, pena de morte, papel da religião). O Partido Democrata essencialmente recuperou o Sul onde necessitava voltar a ganhar para poder ser governo, mas os democratas sulistas são tradicionalmente conservadores e bem menos amigos das reformas progressistas que os democratas da Nova Inglaterra, de Illinois ou da Califórnia querem fazer. Parte deste conflito histórico dentro dos democratas já foi evidente nos últimos dois anos. Apesar de maioritários no Congresso, os democratas não conseguiram formar uma maioria sólida, tendo sido evidente a incapacidade da sua líder, Nancy Pelosi, em determinar a agenda do poder legislativo.
A eleição de Obama apenas confirmou este processo de evolução para a direita do sistema político norte-americano. Os republicanos apresentaram um candidato moderado que teve de fazer concessões à direita religiosa durante quase toda a campanha. Mesmo assim, e depois de oito anos do pior presidente que os Estados Unidos tiveram, conseguiu 47% dos votos. No outro lado, Obama teve que moderar a sua campanha quer nas primárias, quer nas presidenciais, ao ponto de favorecer a exposição mediática do seus apoiantes republicanos (como Powell) em detrimento da ala esquerda dos democratas que quase desapareceu na campanha (Jesse Jackson nem se viu até à noite eleitoral). Dentro da coligação que é o Partido Democrata, sem dúvida que Obama começou a sua carreira política à esquerda, mas acabou por ser eleito com uma plataforma bastante moderada. A complexidade dessa evolução mostra-se na forma como Obama conseguiu motivar o eleitorado negro a votar, garantindo os seus 52%, mas o mesmo eleitorado que ilegalizou o matrimónio homossexual na Califórnia (Proposição 8).
O centrismo da nova administração responde à maioria conservadora que domina o Congresso. Nesse sentido, e para desespero da esquerda norte-americana, Obama é bem mais uma mistura de "terceira via" de Blair (ele também apresentado em 1997 como uma viragem à esquerda quando na verdade consolidou a "direitização" da realidade política britânica) com o pragmatismo de Clinton, e menos um Roosevelt ou um Kennedy. Obama carece da maioria sociológica e política para ser um FDR com que alguns sonham. E só por piada se pode dizer que a nova administração norte-americana é social-democrata. Resta a gargalhada ao ler nalguma imprensa espanhola que Obama vai ser o Zapatero dos Estados Unidos.
Nos próximos tempos é bem possível que Obama agrade menos aos seus apoiantes da primeira hora e agrade mais aos moderados e conservadores que suspeitaram dele quase até ao fim. Mas, se assim for, apenas confirma que Obama é um político que entende para onde vai a sociedade norte-americana. E, por isso, mesmo ganhou as presidenciais.
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