terça-feira, dezembro 02, 2008

ROBERT FISK - O Afeganistão e os Talibans - [Tradução: Caia Fittipaldi]

Afeganistão: Ninguém apóia os Taliban, mas todos odeiam o governo

Robert Fisk, 27/11/2008*

O colapso do Afeganistão está mais próximo do que o mundo supõe. Kandahar está em mãos dos Taliban – toda a cidade, exceto cerca de 3 km2, no centro – e os primeiros comando avançados dos Taliban já estão a apenas 14 km de Kabul. O governo profundamente corrompido de Hamid Karzai está quase tão impotente quando o gabinete iraquiano na "Zona Verde" de Bagdá; os caminhões só trafegam pelo país com autorização emitida pelos Taliban, que têm tribunais próprios em regiões inacessíveis.

A Cruz Vermelha já avisou que as operações humanitárias têm sido impedidas de chegar a grandes áreas do Afeganistão; mais de 4 mil pessoas, pelo menos 1/3 das quais, civis, foram mortas nos últimos 11 meses, além dos soldados da Otan e cerca de 30 membros de entidades civis de ajuda humanitária. Tanto os Taliban quanto o governo de Karzai têm executado prisioneiros, em número cada vez maior. As autoridades afegão enforcaram em novembro cinco homens acusados de assassinato, sequestro ou estupro – um deles parente distante do presidente Karzai, como seria fácil prever, teve a sentença suspensa – e há 100 condenados, no corredor da morte da prisão, em Kabul.

Nem parecido com o Afeganistão democrático, pacífico, emergente, com "consciência de gênero", que o mundo prometeu criar depois de derrubar o governo Taliban em 2001. Fora da capital e no extremo norte do país, quase todas as mulheres usam a burca, e combatentes juntam-se aos grupos Taliban, da Cachemira, Uzbequistão, Chechênia e até da Turquia. Estima-se que 300 combatentes turcos estejam hoje no Afeganistão, muitos deles com passaportes europeus.

"Não conheço ninguém que queira que os Taliban voltem ao poder", diz um empresário em Kabul – "sem nomes", como pedem hoje, exatamente como pediam antes de 2001 – "mas todos odeiam o governo e o parlamento, que não se preocupam em oferecer segurança às pessoas. O governo é inútil. Há muitos refugiados internos que vêm do interior do país para a capital, há desemprego em massa – mas, é claro, não há estatísticas.

"O 'livre mercado' levou muitos de nós ao desastre financeiro. O Afeganistão é uma espécie de palco em que lutam ideologias, ópio e corrupção política. Agora, são empresas comerciais que recebem contratos de órgãos como a USAID. Primeiro, embolsam de 30 a 50% do que recebem, como a parte que lhes cabe – depois re-contratam e subcontratam os serviços com outras companhias. Os afegãos só vêem cerca de 10% da quantia original."

Os afegãos que trabalham em organizações de auxílio humanitário e para a ONU têm contado aos superiores que é cada vez maior a pressão dos Taliban, que querem informação ou abrigo e cobertura. No interior do país, os agricultores vivem sob ameaça dos dois lados em guerra. Um antigo funcionário de uma ONG em Kabul – que também pede que não se publique seu nome – diz que os Taliban e a polícia, ambos, ameaçam os moradores das aldeias. "Frequentemente acontece de um grupo de Taliban chegarem à casa de um camponês, numa aldeia, no meio da noite – às vezes 15 ou 16 homens armados – e pedirem comida e pernoite. E o líder da comunidade aconselha os agricultores a dar-lhes comida e os põe na mesquita, para pernoitarem. Pela manhã, chegam a polícia ou os soldados, e acusam os camponeses de cumplicidade com os Taliban; prendem gente e ameaçam suspender a ajuda humanitária. E, isso, sem falar o risco permanente, nas aldeias, de serem atingidos pelo fogo aéreo dos EUA."

Na cidade de Ghazni, os Taliban ordenaram que os telefones celulares permaneçam desligados, das 17h às 6h, para evitar que espiões infiltrados enviem sinais que permitam localizar os esconderijos. A guerra dos telefones celulares talvez seja a única guerra que o governo está vencendo.

Com ajuda dos EUA, a polícia do ministério do Interior pode localizar e triangular chamadas. Mais uma vez, os EUA estão falando sobre armar "milícias tribais" para combater o Taliban, como já fizeram no Iraque e como as autoridades do Paquistão tentaram fazer na fronteira noroeste. Mas os lashkars[1] dos anos 80 foram corrompidos pelos russos, e quando o sistema foi testado pela primeira vez, há dois anos – conhecido, então, como "Força Policial Auxiliar" (Auxiliary Police Force) – foi um fiasco. As tais 'milícias' começaram a faltar ao trabalho, roubaram as armas e converteram-se em milícias privadas.

"Agora, cada novo embaixador ocidental que chega a Kabul, recomeça a mesma conversa," diz outro funcionário de ONG, à beira do desespero. "'Oh,' dizem eles, 'vamos fazer milícias locais – que idéia brilhante.' Nada disso resolverá o problema. O povo sofre tanto com a crueldade das milícias quanto com a crueldade dos Taliban quanto com os ataques aéreos, que, para os afegãos, são escandalosos. A comunidade internacional tem de parar de distribuir boatos e começar a pensar sobre coisas fundamentais, como já deveriam estar fazendo há quatro ou cinco anos."

O que isso deve sugerir aos ocidentais que estão há anos em Kabul é bem simples. Será que os afegãos sonham, mais do que com qualquer outra coisa, com alguma "democracia"? Será possível construir um Estado federal forte, no Afeganistão? A comunidade internacional está preparada para enfrentar os senhores-da-guerra e os barões da droga, já instalados no próprio governo de Karzai? E – mais importante que tudo – terá havido algum progresso no que tenha a ver com "tornar seguro o país"? O desgastado slogan dos norte-americanos, que diz que "onde acaba a pista de pouso, começa o Taliban" é falso. Os Taliban já têm postos instalados até nas estradas recém construídas.

O ministro de Defesa afegão tem 65 mil soldados sob seu muito duvidoso comando, e diz que precisa de 500 mil para controlar o Afeganistão. Os soviéticos fracassaram, em idêntica empreitada, mesmo quando aqui havia 100 mil soldados russos, apoiados por mais 150 mil soldados afegãos.

Dado que Barack Obama prepara-se para mandar outros 7 mil soldados dos EUA, para o poço, no Afeganistão, os espanhóis e os italianos estão de partida, e os noruegueses consideram a retirada dos seus 500 homens, do norte de Heart. Cada vez mais, líderes ocidentais repetem que a 'chave' seria treinar mais e mais afegãos para o exército afegão. Exatamente a mesma "chave" que os russos tentaram – e que não abriu a fechadura.

"Nós" não estamos vencendo, no Afeganistão. A conversa de "destruir" os Taliban soa tão completamente irrealista hoje, como sempre. De fato, quando o presidente do Afeganistão tentou conversar com Mullah Omar – um dos principais alvos dos EUA, nessa guerra fracassada – viu-se o que aconteceu. E nem Mullah Omar quer conversa com Karzai.

Dividir o país é a única opção que ninguém discute – com o Afeganistão cedendo o sul aos Taliban – mas isso apenas abrirá nova crise com o Paquistão, porque os Pashtuns, que formam a maioria dos Taliban, quererão todo o território do que consideram o Pashtunquistão; e isso teria de incluir parte significativa dos territórios das tribos pashtun do Paquistão. Será também a volta do "Great Game"[2] e o redesenho das fronteiras do sudoeste asiático, que – a história mostra – sempre foi acompanhado de derramamento de sangue.


[1] Literalmente "Exército dos bons", ou "Exército dos Justos". Está na lista norte-americana de "organizações terroristas". Sobre isso, ver, por exemplo, http://www.satp.org/satporgtp/countries/india/states/jandk/terrorist_outfits/lashkar_e_toiba.htm   

[2] O termo refere-se à rivalidade e ao conflito entre o Império Britânico e o Império Russo, que disputavam a supremacia na Ásia Central, desde o Tratado Russo-Persa de 1813. Ver, sobre isso, por exemplo, http://en.wikipedia.org/wiki/The_Great_Game.

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